Na sociedade ocidental, a concepção de infância como uma fase da vida específica que demanda cuidados especiais não foi sempre como a conhecemos hoje. Ainda no (não tão distante) século 19 as crianças eram submetidas a jornadas de trabalhos excessivas e colocadas para trabalhar em situações nas quais não era “eficiente” o trabalho do adulto, como atingir espaços pequenos em minas de carvão.
Felizmente, o olhar para a criança se modificou. Hoje, essa fase tem sido compreendida como um momento que demanda atenções e cuidados específicos. Certamente que avanços ainda se fazem necessários. As desigualdades sociais ainda impedem o acesso a cuidados básicos em saúde para boa parte da população. Mas já avançamos muito. Porém, com tantos conhecimentos e tecnologias, podemos estar caindo em novos tipos de armadilhas.
Nascer e crescer nos tempos atuais significa estar rodeado de uma série de preocupações e direitos. Entretanto, também significa nascer em famílias que estão cada vez mais perdidas e confusas em relação a si próprias e a seu papel no mundo e que, com a chegada de uma criança, se veem com mais uma tarefa: a de se tornarem responsáveis por esse ser em formação.
Com isso surge a cobrança: como contribuir para que meu filho atinja todo o seu potencial? Como garantir que ele tenha as melhores oportunidades e sucesso na vida?
E, assim, sem nem perceber, e com a maior boa vontade e disposição, rodeamos a criança de uma série de demandas e expectativas, para as quais ela pode não estar preparada.
Nossa sociedade cada vez registra menores índices de desnutrição infantil, menores taxas de mortalidade por doenças infectocontagiosas, o que já foi um padrão epidemiológico que assolou a humanidade. Porém, nunca tivemos tantos registros de distúrbios de comportamento, déficits de atenção, hiperatividade, distúrbios do sono, ansiedade e depressão, entre outras condições de adoecimento da saúde mental. As crianças estão cada vez mais obesas, cansadas, estressadas e a adolescência vem sendo prorrogada a cada dia. E os adultos, que estão cada vez mais obesos, cansados, estressados, se veem perdidos e sem saber o que fazer.
Ao lidarem com uma situação de adoecimento de um filho, mesmo que seja um resfriado ou uma queda leve com algum trauma durante uma brincadeira saudável, os pais já questionam a necessidade de um antibiótico, uma tomografia, exames de sangue, busca imediata por pronto socorro. Estamos rodeados de possibilidades de intervenções, tecnologias e opções.
Com tudo isso, em todo esse contexto frenético e cheio de novas aparentes necessidades criadas a cada dia, cumpre-nos destacar uma palavra que nós adultos estamos esquecendo e que as crianças podem nos lembrar: CALMA.
A criança nos ensina a ter calma durante toda a sua existência. Por mais que tenhamos pressa, o embrião precisa de seu tempo para se desenvolver. Sem necessidade clínica específica, adiantar um nascimento com um parto forçado ou, como costumamos chamar hoje em dia, agendado, não coloca o bebê em uma condição mais favorável perante a vida, e o corpo desse bebê pode responder pedindo calma ao dizer que não está pronto para respirar, e que precisa de uma incubadora para ajudá-lo a terminar o desenvolvimento que vinha acontecendo dentro do ventre.
O bebê precisa do seu tempo para aprender a mamar, a dormir. Ser natural não significa que não deva fazer parte de um processo de adaptação e aprendizado. O bebê precisa do seu tempo para olhar para seus pais e sorrir para eles, aprendendo como é o rosto humano que irá fazer parte de toda a sua jornada como ser social. Precisa do seu tempo para firmar a cabecinha, os ombros, o tronco, o quadril para, finalmente, poder sentar. Sentar primeiro apoiado, depois sozinho, depois engatinhar, se levantar com ajuda, depois sozinho, se sustentar sobre suas pernas e pés para, então, arriscar o movimento, que parece tão banal, de colocar um pé à frente do outro para começar a se deslocar num mundo cheio de novidades.
Ao ser apresentado a um novo alimento, esse bebê precisa explorá-lo, com os olhos, com as mãos, com a boca, até entender que daí virá sua nutrição para o resto da sua existência. E isso para cada fruta, para cada alimento com diferente sabor, textura, cor, forma.
Ao iniciar as atividades em algum ambiente fora de casa, seja na creche, escolinha, o corpo do bebê precisa de tempo para se adaptar àquele novo espaço, e seu organismo vai responder frequentemente de maneira intensa, com uma febre, tosse, um nariz escorrendo, e não há antibiótico que possa evitar ou resolver tudo isso.
E assim segue. A criança cresce com cada uma dessas descobertas e possibilidades, sem receita pronta, sem objetivos a serem atingidos. Ela não sabe que “precisa” falar, ler, aprender inglês e ser campeã de natação, porque só assim terá “sucesso” na vida. E, sem o seu tempo próprio, sem o respeito à pessoa que ela é e está se tornando, a resposta pode vir na forma de uma dessas tantas situações que afetam a saúde mental como citamos acima.
Claro que devemos explorar todas as nossas habilidades possíveis enquanto seres humanos, que devemos desenvolver toda a nossa capacidade e a das crianças, através do estímulo e interação social, visto que somos muito mais que seres biológicos. Mas a sociedade atual nos tornou competitivos, preocupados, agitados, tensos, dependentes de antidepressivos, ansiolíticos e outras drogas (sim, remédio também é droga, com prescrição médica).
Vamos lutar para que nossos seres tão preciosos possam seguir outros caminhos. Vamos lembrar que respeitar o tempo da criança também é um direito que ela merece (e o adulto também).
Para finalizar, uma breve reflexão poética a ser apreciada. Sim, com tempo, com calma, pois também merecemos.
Vocês dizem: “Cansa-nos ter de conviver com as crianças”. Têm razão. Vocês dizem ainda: “Cansa-nos porque precisamos descer ao seu nível de compreensão”. Descer. Rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado. Estão equivocados. Não é isso o que nos cansa, e sim o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível de sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar nas pontas dos pés, estender a mão. Para não machucá-las.” (Janusz Korczak)
Assista o vídeo abaixo:
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